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Distúrbios inconcientes
Pensamentos assoberbados
Vontades não esclarecidas
Sentimentos não sentimentalizados
A noite chega com a escuridão
O dia se vai com a luz
Efeitos desfeitos com a voz do silêncio
Sonhos reais, realidade virtualista
Poucos, nenhum, alguns
Palavras, telas escritas em tons reais
Vontades expressas em razão
Loucuras do dia à dia
Sonhos molhados e proibidos
Garganta seca e enaltecida
Olhos molhados, vermelhos
Garganta molhada, explícita
Corpos fechados, molhados
Suor frio, sonho de desejo
Bares abertos
Copos vazios
O café da manhã a espera
Não volto pra casa
- O fim está chegando!
- O fim está chegando!

Gritava o louco a correr pela rua.
As calçadas cheias, mulheres, crianças, cachorros, homens; caminhavam desinteressados.
Uma senhora agradecia a um rapaz. Gentileza, conduziu-a pela rua.
O trem assobiava ao longe uma melodia triste, tristeza de quem parte, tristeza de quem fica.
O moleque descalço, calção rasgado, avergonhado, surrupiava uma madura maça, desonestidade faminta.
O casal em pé de briga praguejava incomodados com a fumaça do charuto paraguaio do careca boliviano.
Freiada brusca, olhares pra rua, só susto, não foi nada, buraco na pista, a senhora já atravessou.
A madame no salto, desce dai, desce dai seu louco, e o louco gritando.
Cheirinho de pipoca, a fila tá grande, compro em outro lugar.
- O fim está chegando!
- O fim está chegando!
A senhora já atravessou, buraco na pista, olhares pra rua, freiada brusca.
E o louco parou de gritar.

"Você irá escrevendo, irá escrevendo, se aperfeiçoando, progredindo, progredindo aos poucos: um belo dia (se você agüentar o tranco) os outros percebem que existe um grande escritor."
Mário de Andrade

 

Pai pra toda obra

Aqui jaz, pra sempre vivo
Olhos fechados, pele branquinha, semblante sereno
Olhos abertos, pele morena, corpo pequeno
Sorriso fácil, poucas palavras, boas lembranças
Quatro sementes - três homens, uma mulher
Frutos maduros, já não são mais crianças
Guerreiro, forte, exemplo, trabalhador
Já não sente fome, já não sente frio, já não sente dor
Deitado, entubado, sem voz
Fraco, impotente, vigiado, maquinado
Fumo, farra, loucura, prazeres, amigos
Eles o levaram, eles o tiraram de nós
Lá se foi o baixinho ,lá se foi o "Didi"
Olhos fechados, pele branquinha, semblante sereno
Olhos abertos, pele morena, corpo pequeno
Distante ou perto, estava ali, vivo, paterno
Honrado, admirado, copiado, injusto
Que o mártir da inconfidência me perdoe
Mas vinte e um de abril já não é mais seu dia

Horizonte Vertical


Cidade grande, alucinante, perdida
Asfaltos rasgados por borrachas negras
Motores berrando madrugada a dentro
Orgias, escadas levam a elas
Mundo obscuro cheio de luzes
Estranhos na chegada; bela visão
Saudade de quem parte, bem-vindo os que chegam
Gente, simples abandono, esquecidos conhecidos
Portas fechadas, corpos abertos
Mentes sujas, corpos limpos, cultos
Hoje estou de volta, volta e meia estou aqui
Desenterrando os mortos, conhecendo novos ninhos
Filhos da terra, raízes expostas
Sangue, ratos, pirulito, liberdade
Governo instalado, instaurado, inquérito arquivado
Pleno poder, pátria solteira casada com o mundo
Vertigem, arranha céu, fobias, elite cultural
Linha verde, azul, linhas ocupadas
Movimentos com nomes, próprio e impróprio
Lagoas, macacos e jacarés
Zoobotânica se perdendo, o cimento avançando
Serras se comprimindo, comprimidos pra dor
Vento quente, acelerado movimento
Frio, medo, em cima ou embaixo
Ambos os lados são os mesmos
Diferenças são iguais, iguais são as diferenças
De um lado, belo , de outro, horizonte



Não é esse o amor que eu quero, não é assim que tem que ser, ocultar minha verdadeira identidade não vai fazer de mim melhor, não vai. Diferenças são aceitáveis, brigas não.
Amor por debaixo dos panos, a oposição se intriga, medo de aceitar a verdade?
Velhas desculpas, perdão perdido na contagem do tempo, ele não descansa.
E você, consegue dormir a noite? Sente medo? sente falta? sente frio?
Tá escuro aqui, estranho, todas as luzes estão acesas, acho que sou apenas um vulto.
No espelho não me enxergo, minha identidade continua a mesma, mas minha certidão não, averbada, antiga desistência de um futuro passado.
O sol é o mesmo, os dias, ah os dias, esses sim são diferentes, peculiares, únicos.
Já não seguro mais a sua mão, já não tenho os seus beijos, seu cheiro já não é mais o meu.
Ainda tenho vida, ainda posso sonhar, acordado, em desacordo com minha razão.
Ainda tenho vida, você, realidade, praticamente tudo é igual,o roteiro é o mesmo, só mudaram o fim. Mas ele ainda não chegou, ainda está longe.
Espero mais de mim, espero sempre por ti, espera ocultar seus desejos?
Agora estou pronto, preparado, lúcido, entregue, se entregue.
Refazer, reconstruir, recomeçar, o principio do meio do fim, sem medo, sem nós.
Recolocar, restituir, reintegrar, o fim com o princípio, o fim com os meios, eles se justificam.
Mas não é esse o amor que eu quero, amor cobrado, perdido, profundo.
Amor por debaixo dos panos.
- O fim está chegando!
- O fim está chegando!

Gritava o louco a correr pela rua.
As calçadas cheias, mulheres, crianças, cachorros, homens; caminhavam desinteressados.
Uma senhora agradecia a um rapaz. Gentileza, conduziu-a pela rua.
O trem assobiava ao longe uma melodia triste, tristeza de quem parte, tristeza de quem fica.
O moleque descalço, calção rasgado, avergonhado, surrupiava uma madura maça, desonestidade faminta.
O casal em pé de briga praguejava incomodados com a fumaça do charuto paraguaio do careca boliviano.
Freiada brusca, olhares pra rua, só susto, não foi nada, buraco na pista, a senhora já atravessou.
A madame no salto, desce dai, desce dai seu louco, e o louco gritando.
Cheirinho de pipoca, a fila tá grande, compro em outro lugar.
- O fim está chegando!
- O fim está chegando!
A senhora já atravessou, buraco na pista, olhares pra rua, freiada brusca.
E o louco parou de gritar.


Enquanto não soltarmos esse grito que está preso dentro da gente, ninguém soltará por nós.
Mesmo que te recriminem, GRITE!



Já é noite, está quente, sinto frio.
Seu semblante - minha ira
Sua carne me alimenta
Seu olhar me condena, seu sorriso me atrai
Minha culpa - sua glória, liberdade
Calejados pés e mãos, língua desgastada
Canções escritas, cantadas sem sentido
Pedido perdido, em vão, o perdão
Farpas e espinhos, seu sangue
Minha sede saciada
Sua dor - minha angústia
Sua pele - fina flor do desejo
Sua alma - complemento
Afogado, reduzido, cinzas nuvens
Tempo fechado, encaro os trovões
Transponho o vendaval, que os raios me partam
A porta que eu entro é só saída
A escada que eu subo é só descida
Tudo as avessas, minhas roupas, minhas meias, minha vida
Seria eu capaz de acordar novamente?
São as mesmas pessoas, gente morta, calafrios.
Velhas novas idéias, novos e velhos conhecidos
Mesmos postes, mesmas ruas, mesmos rios
Passos largos procuro encurtar o caminho
Parece não ter fim, nunca chego
Já não chega? Estou exausto, afogado, reduzido
Minha culpa - sua dor, sua glória e liberdade
Meu gozo, último súspiro
Prazeres mentirosos, carne saciada, o coração ainda sangra
Farpas e espinhos




Quisera eu poder solfejar melodias graciosas ao seu ouvido para que dormisse sonhando alerta aos meus desejos
Quisera eu poder evitar uma forma de encontrar com o futuro, recuperar o passado e preservar seus desejos
Quisera eu poder manter as coisas como nunca foram, poder ser outro, agora ser eu mesmo
Quisera eu poder me deitar e levantar sem sentir sua necessária presença
Quisera eu poder olhar para frente, pros lados, pra traz e não enxergar você
Quisera eu ter vivido uma vida com sentido, sentimentos e sensações honestas
Quisera eu ter tido uma única vida ao seu lado, sem perdas, sem danos, realizado os planos
Quisera eu ter podido amar e ser amado
Quisera eu ter podido ser homem quando eu era menino
Quisera eu poder começar de novo, te encontrar do zero, e começar do nada.
Não quero mais andar em círculos
Voltar sempre ao mesmo lugar
Me incomodar com as mesmas coisas
Resolver os mesmos problemas
Falar pelo que já foi falado
Ouvir pelo que já foi ouvido
Ver pelo que já foi visto
Quero o novo, o inusitado, o desconhecido
Chorar outras lágrimas
Cantar outras canções
Pecar novos pecados
Quero o novo, o inusitado, o desconhecido
Novas portas, janelas, lençois
Copos, pratos, talheres
Gosto, cheiro, mulheres
Novas ou velhas
Velhas ou novas
Amar sem ser amado
Ser amado sem amar
Quero o novo, o inusitado, o desconhecido
Até que eu seja falado, honrado, aceito
Cobiçado, heroi,  pai, imortal
Mesmo depois de estar em outro plano, outro lado ou falecido
Quero o novo, o inusitado, o desconhecido